A epidemia da solidão

A epidemia da solidão

Elisabete Brito – 18.06.2026

 

“Agora sei o que é a solidão. Quando ouvia, não percebia. É tão triste!”

Escutei esta frase nos tempos de pandemia. Ficou guardada. Hoje lembrei-me dela. Talvez a solidão seja, efetivamente, triste quando não é uma opção. Quando falta companhia, quando falta alguém para partilhar momentos, uma vida. Quiçá seja um peso difícil de carregar.

A pandemia trouxe mais do que a ausência de pessoas. Trouxe a ausência dos risos, dos abraços e dos encontros. Nesses dias, o que parecia comum tornou-se impossível. Nesse vazio cresceu a solidão. Nesse tempo inventaram-se formas de estar presentes, através das videochamadas, dos telefonemas, das mensagens, que tentavam iluminar os dias cinzentos. 

A pandemia passou. A solidão permaneceu.

Esta é uma solidão diferente. Não mora apenas no vazio das casas sem gente. As redes sociais criaram uma ilusão de proximidade. Estamos ligados a muitos, mas próximos de poucos. Estar ligado não é sinónimo de estar próximo. Afinal, uma mensagem não é um abraço ou um emoji, um olhar que não precisa de palavras para ser sentido.

Esta solidão que anda por aí, que nos dá a mão, nem sempre é visível. Tem muitas idades, muitos rostos. Muitas moradas. Talvez estejamos a habituar-nos a ela sem que nos apercebamos.

O ritmo acelerado entre trabalhos, estudos, agendas cheias, suga o tempo para aquilo que nos aproxima. As relações tornam-se, assim, mais céleres e também mais débeis. Falta-lhes pertença. Talvez as relações andem mais pobres. Por mais presentes que possamos estar, falta, muitas vezes, aquele olhar nos olhos, sem pressa.

As notificações não eliminam a solidão. Aliás, quando penso nisso, fazem o inverso. Muitas vezes, criam distância. Há dias em que também quero desligar a ficha para sentir o silêncio e estar só. Não quero desligar-me das pessoas. O mundo tornou-se demasiado acelerado, cheio de ruídos e distrações.

Precisamos apenas de mais presença verdadeira, com tempo e atenção. Corajoso não é aquele que está sempre ligado, mas aquele que tem a ousadia para interromper a ligação à rede para estar por inteiro consigo próprio e com os outros.

Mais do que as ligações à internet, são fundamentais as ligações humanas. Sentir-se solitário não significa necessariamente estar só. A verdadeira tristeza da solidão nasce quando sentimos que não pertencemos a lugar nenhum, quando nos falta um lugar onde nos sintamos compreendidos, acolhidos e valorizados.

Texto publicado em https://www.facebook.com/profile.php?id=61570787903821

Elisabete Brito

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Elisabete Brito é doutorada em Sociologia, Mestre em Educação e Bibliotecas e licenciada em Literaturas Modernas. Na escrita mora a sua forma de ser, de ler e de estar, entranhada em tudo o que faz. Com as palavras pinta o mundo, costura os sentidos, reinventa os dias e, acima de tudo, brinca. Gosta dos abraços do mar, do charme das flores e dos segredos que guardam as noites estreladas, de andar com a cabeça nas nuvens e dos mistérios cheios de poesia.

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