A outra parte da história

Elisabete Brito – 11.06.2026

 

Chega todos os anos o instante em que os corredores das escolas ficam mais silenciosos e os cadernos e os livros se fecham. As notas surgem nas pautas, nas aplicações. Ocupam muitas conversas, mas só contam uma parte da história. Não mostram o esforço de quem teve dificuldades e persistiu, apesar de tantas vezes querer desistir. Não mostram as pequenas vitórias diárias diante das pedras do caminho, as lágrimas, os abraços, as palavras de coragem.  Nelas não estão as experiências, as aprendizagens para lá dos livros, os desafios e os medos vencidos.

Resume-se um ano a um número inscrito numa linha. Mas os caminhos da aprendizagem não se fazem em linha reta. Estão cheios de desvios, interrupções, altos e baixos. Neles circulou, certamente, muitas vezes o erro, aquele que faz parar para encontrar novos caminhos, a ritmos completamente distintos.

Olho para tudo isto e questiono-me. Este tempo de aprendizagem não se resume a um conjunto de resultados. Não pode resumir-se porque cada passageiro parte de pontos diferentes, apesar de todos seguirem no mesmo comboio. A viagem tem diferentes etapas, com formas distintas de olhar o percurso. Os ritmos oscilam, tal como caminho.

O que realmente importa é o caminho que se constrói, o que cada um leva consigo desta jornada. As crianças são seres em construção e essa construção é feita de resistência, de distrações, de crescimentos mais lentos, por vezes, de desmotivação. Quando o resultado não é elevado, o percurso parece perder valor. Será realmente assim? Há muito para além de um resultado. Existe aquilo que não é visível e que pode ficar guardado para mais tarde, abrindo portas quando menos se espera.

O conhecimento profundo não é imediato. A confiança não se constrói por decreto. A criatividade não se coaduna com rigidez ou prazos apertados. Precisa de liberdade para voar.

Talvez seja tempo de repensarmos as questões que colocamos, enquanto sociedade e enquanto pais. Talvez seja tempo de refletirmos sobre o que cada ano acrescentou a cada criança enquanto pessoa e enquanto estudante.

Conquanto os resultados importem, é essencial valorizar a outra parte da história para que a resiliência e a motivação não se dissipem.

Os resultados mudam, sobem e descem. As aprendizagens que nos moldam enquanto seres humanos — a coragem, a esperança, a capacidade de superação e de continuar — permanecem connosco e constituem conquistas que nenhum número consegue traduzir por completo.

Texto publicado em https://www.facebook.com/photo?fbid=122110733828692930&set=a.122101308992692930

Elisabete Brito

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Elisabete Brito é doutorada em Sociologia, Mestre em Educação e Bibliotecas e licenciada em Literaturas Modernas. Na escrita mora a sua forma de ser, de ler e de estar, entranhada em tudo o que faz. Com as palavras pinta o mundo, costura os sentidos, reinventa os dias e, acima de tudo, brinca. Gosta dos abraços do mar, do charme das flores e dos segredos que guardam as noites estreladas, de andar com a cabeça nas nuvens e dos mistérios cheios de poesia.

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