Cuidar e amar: verbos estranhos

Cuidar e amar: verbos estranhos?

Elisabete Brito – 25.06.2026

 

Há dias em que ler notícias ou ver telejornais me incomoda. As notícias repetem-se sobre assuntos similares e questiono-me sobre o que está a acontecer connosco. Guerras, violência, abandono, homicídios, ciúmes, vinganças, insultos, egoísmo. Muda-se o cenário, alteram-se os protagonistas, mas a história parece sempre a mesma. Viro a página para que não me contaminem de ódio e de indiferença.

Por estes dias, dou por mim a pensar em dois verbos muito simples: cuidar e amar.

São palavras antigas, usadas por todos. Porém, começam a soar estranhas. Permanecem no dicionário, mas parecem, a cada dia, perder mais espaço na nossa vida. De todos os cantos ressoam discursos de celeridade, produtividade, eficiência e sucesso. Fala-se pouco de cuidar. Muito menos amar.

Afinal, cuidar exige tempo para olhar para o outro numa época que acelera. Tempo para escutar, para estar presente. Mas essas não são notícias que, normalmente, causam impacto.  Cuidar exige atenção, quando tudo o resto nos incita à dispersão e à distração. Cuidar não importa quem – uma criança, um pai, uma mãe, um amigo, uma flor. Permanecer tornou-se uma tarefa árdua. Na verdade, muitos esquecem que neste cuidar mora “o tempo que perdeste com a tua rosa” e foi precisamente o que “tornou a tua rosa tão importante." (Principezinho de Saint-Exupéry).

Amar também se tornou um verbo estranho. Não aquele que surge nas redes sociais, aquele que está estampado nas fotografias perfeitas ou nas declarações que se fazem para que todos possam ler. O amor de que falo é aquele que aceita as imperfeições, que suporta as desventuras e que, mesmo, assim, continua a escolher o outro todos os dias. Amar é por estes dias um exercício de resiliência.

Talvez o mundo nunca tenha sido perfeito, talvez o olhássemos de modo diferente ou talvez o que há de pior nele se tenha acentuado um pouco mais. No entanto, quando as expressões mais sombrias da condição humana parecem habituais, cuidar e amar são atos de perseverança.

Talvez seja justamente por isso que precisamos tanto deles. Por entre o excesso de ruído, de exposição, de informação, de pressa, de velocidade, são eles que nos sustentam a nós e aos laços que nos tornam humanos. Sem eles, cresce o vazio. Eles pedem-nos aquilo que mais rareia por estes dias: tempo, atenção, entrega e paciência.

Talvez o desafio seja, afinal, tão simples quanto valorizar aquilo que sempre soubemos fazer: cuidar e amar.

Texto publicado em: https://www.facebook.com/profile.php?id=61570787903821

Elisabete Brito

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Elisabete Brito é doutorada em Sociologia, Mestre em Educação e Bibliotecas e licenciada em Literaturas Modernas. Na escrita mora a sua forma de ser, de ler e de estar, entranhada em tudo o que faz. Com as palavras pinta o mundo, costura os sentidos, reinventa os dias e, acima de tudo, brinca. Gosta dos abraços do mar, do charme das flores e dos segredos que guardam as noites estreladas, de andar com a cabeça nas nuvens e dos mistérios cheios de poesia.

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