
Elisabete Brito – 21/05/2026
Há dias em que observo a manhã da minha janela, quando ainda se ouve o silêncio dos passos da rua que desperta e encontro vestígios de uma forma delicada no trato. As pessoas cumprimentam o desconhecido, seguram uma porta. Solta-se aqui e ali um “obrigado” baixinho, um bom dia, que não pesam no bolso. Uma voz delicada, mas forte, acolhe com palavras simples. Desprende-se a delicadeza de um sorriso. Ainda há recantos feitos de histórias envoltas pela gentileza e pela empatia.
Mas quando desvio o olhar, começam os passos a misturar-se uns nos outros. As pessoas movem-se depressa, como se caminhassem por um corredor para chegar sempre a outro lado qualquer. Correm entre horários impacientes, mensagens estridentes, preocupações que se desenrolam e os passos parecem feitos de empurrões silenciosos.
Olho para esta rua distante e para a insensibilidade da alma dos seus passos. Onde andam os que escutam sem pressa? Parece crescer esta frieza vestida de cansaços, de pressas, de desilusões. Lentamente esta indiferença parece banal nos olhares vazios que não veem aquele que pede ajuda. Segue cheia de gente, deixando atrás de si pegadas sem personalidade que a esvaziam de sentidos. Entre elas, uns passos envergonhados em surdina, entre a multidão de corpos ausentes, perdidos dentro desta frieza silenciosa.
Uma mulher de meia-idade. Cabelo curto, roupas comuns, limpas. Saiu à rua quando não suportou mais o desespero por não ter o básico para o dia se tornar habitável. Faltou-lhe o dinheiro para o gás. Uma realidade pesada. Sem ele faltam também o calor das refeições em casa, o banho quente. Afinal existe uma violência silenciosa que espreita em cada esquina. Sem levantar a voz, decidiu gritar para pedir ajuda.
Não é apenas uma mulher. Tal como ela há muitas vozes que se levantam, envergonhadas, em surdina, e encontram o silêncio de quem escolhe não ouvir e não ver. No meio desta azáfama há alguém perdido. Talvez a gentileza e a empatia não resolvam todos os problemas do mundo, mas afastam, muitas vezes, a escuridão.
Há uma citação que refere que a gentileza é uma linguagem que o surdo pode ouvir e o cego pode ver. Ela traz consigo o respeito e cultivá-la não é apenas um gesto bonito, é um antídoto essencial, mas perde-se quando os passos preferem seguir caminho sem intervalos, de cada vez que uma voz ousa gritar assim. Afinal, a indiferença é, realmente, a essência da desumanidade (George Bernard Shaw).
Olhar para o lado não implica interromper o caminho. Fazê-lo é acrescentar-lhe humanidade porque ela vive de pequenos grandes gestos. Reconheçamos que o caminho de cada um não é individual.
Texto publicado em https://www.facebook.com/photo?fbid=122108272466692930&set=a.122101308992692930

Elisabete Brito
Uma Casa na Lua

Olá, convido-te para a minha Casa na Lua!
Elisabete Brito é doutorada em Sociologia, Mestre em Educação e Bibliotecas e licenciada em Literaturas Modernas. Na escrita mora a sua forma de ser, de ler e de estar, entranhada em tudo o que faz. Com as palavras pinta o mundo, costura os sentidos, reinventa os dias e, acima de tudo, brinca. Gosta dos abraços do mar, do charme das flores e dos segredos que guardam as noites estreladas, de andar com a cabeça nas nuvens e dos mistérios cheios de poesia.



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