O eco dos pequenos gestos

Elisabete Brito - 28.05.2026

Há um silêncio estranho e desconfortável quando uma criança agride outra. Esse não é um silêncio de um espaço deserto, mas aquele que surge quando os adultos reduzem certos comportamentos a algo banal, quando se escuta “coisas de miúdos”. Na verdade, nem sempre se resolve. Muitas vezes permanece na memória que acompanha o tempo.

A violência não desponta quando nasce uma criança. Não nasce simplesmente do vazio nem da brincadeira. A violência aprende-se. Se olharmos para tudo o que está à nossa volta, ela persiste e entranha-se. Vem envolvida num berro, numa humilhação, na forma cruel como se fala nas redes sociais, na impassibilidade, na forma como, tantas vezes, os adultos resolvem conflitos. Tudo isto são comportamentos de um cansaço que se ignora e gera uma falta de paciência cruel. Talvez as horas excessivas de ecrãs e o que neles veem os desliguem do essencial e vão deixando aos poucos de ser crianças por dentro. As crianças absorvem aquilo que veem e aprendem, assim, a crescer.

Os recreios deviam estar cheios de brincadeiras, gargalhadas, abraços, mas o que neles acontece e nem sempre se vê é um pouco diferente. Um empurrão, a exclusão de brincadeiras, palavras que pesam no coração. Não há olhos suficientes de adultos para observar tudo o que acontece em todos esses recantos. Há crianças que se cansam de falar ou de se defender, outras respondem atacando, não importa a configuração. Neste espaço surgem medos.

Quando um grupo ri e uma criança chora, assistimos a uma dor que se transformou numa cena a que é difícil atribuir um nome.  Não, não é espetáculo. Esta é uma cena demasiado hostil. A criança que ri assim é aquela que perdeu a capacidade de reconhecer o sofrimento do amigo que chora, deixou de se colocar na pele do outro, deixou de reconhecer em si a leveza que combina com ser criança. Para onde caminha a humanidade diante deste cenário?

É fundamental respeitar para ser respeitado e isso aprende-se com presença, não nos manuais. O caminho não está apenas na escola, mas em cada um de nós. Na verdade, a criança que agride também carrega em si mais do que pode aguentar ou nomear. Se as crianças de hoje não crescerem adultos empáticos, o que será do amanhã?

É tempo de repensar atitudes, de escutar. É tempo de perceber a raiz e não simplesmente apontar o dedo. A mudança não pede grandes discursos, mas gestos simples. Que exemplos lhes transmitimos? Por onde podemos iniciar esta mudança para que o amanhã seja diferente?

Texto publicado em https://www.facebook.com/photo/?fbid=122109077114692930&set=a.122101308992692930

Elisabete Brito

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Elisabete Brito é doutorada em Sociologia, Mestre em Educação e Bibliotecas e licenciada em Literaturas Modernas. Na escrita mora a sua forma de ser, de ler e de estar, entranhada em tudo o que faz. Com as palavras pinta o mundo, costura os sentidos, reinventa os dias e, acima de tudo, brinca. Gosta dos abraços do mar, do charme das flores e dos segredos que guardam as noites estreladas, de andar com a cabeça nas nuvens e dos mistérios cheios de poesia.

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