O poder das palavras no leitor

O que nos acrescentam as leituras?

O leitor e o escritor têm algo em comum. As palavras e o facto de saberem que a leitura tem um papel mobilizador, transformando vidas e aproximando pessoas. Um escritor vive no mundo das palavras, as que deixa cair sobre a folha, mas também de todas aquelas que saboreia em cada livro. Mas o facto de viver no mundo das palavras não significa que leia mais do que aquele que apenas é leitor, até porque tem de repartir o seu tempo entre a leitura e a escrita e outras tarefas que cada um saberá e há o tempo em que uma pesa sempre mais do que a outra. Mas dirias tu desse lado que o leitor também se divide entre muitas multitarefas.

Há, mesmo assim, leitores vorazes com uma panóplia de leituras extraordinárias. Entre uns e outros, há momentos em que os livros estagnam à espera de serem lidos, com o intuito de despertar sensações que dá vontade de repetir. Acima de tudo são pessoas e movimentam-se nesta correria desenfreada dos dias.

O novo ano trouxe-me uma montanha de novos livros. Para o novo ano? - questionas tu. Não, espero que apenas para os primeiros tempos. Quanto? Não sei… Depende do tempo que me consumirem os projetos de escrita em curso e de tudo o resto que preenche os meus dias. Vou conjugando puzzles todos os dias, mas saberás bem do que falo. Enquanto leitora tento colocar-me no lugar do escritor aquando de cada nova viagem e entrar na história com todos os sentidos.

De qualquer modo, em janeiro, apesar dos projetos de escrita em que enveredei, devorei muitas páginas e em cada detalhe dessas páginas fiz uma multitude de amigos. O que têm em comum estas minhas novas leituras? Todas são de autores portugueses, novos autores (autores a nascer ou a crescer agora) que vale a pena serem descobertos, caso ainda não tenhas ouvido falar deles.

A menina que tinha medo de cães da escritora Carina Novo (ed. Trinta por uma Linha) deu o ensejo. Conheci a Carina Novo mal o ano tinha chegado. A leitura veio logo depois e esta história é efetivamente o reflexo do mundo mágico da autora. Nesta história moram medos. Quem não os conhece? Sofia é a menina que gosta de brincar, de sonhar e de correr com as suas pernas altas e elegantes. Apesar desta boa disposição foge a sete pés sempre que encontra um cão. Por muito que tentem contrariar esse medo, nada parece funcionar. No entanto, algo inesperado acontece nesta história. Conheces alguém com essa fobia? Queres que te conte mais? Deixo para descobrires.

Logo depois, A caderneta de cromos 7.º ano da escritora Lucinda Cunha (ed. Trinta por uma Linha) entranhou-se de mansinho. Neste livro cabe, efetivamente, uma turma de cromos, muito peculiar, considerada a pior turma da escola. Alguém já esteve numa turma assim? Ou alguém lecionou numa turma assim? Cada capítulo deste livro corresponde a um cromo, com a perspetiva de um dos alunos e do diretor de turma. Cada capítulo pode considerar-se como um pequeno episódio do livro, narrado por diferentes personagens, mas interligados entre si. Faz menção a alguns temas da nossa sociedade e sobre os quais é fundamental falar– maus tratos, bullying, obesidade, com muita leveza e naturalidade, mas numa linguagem adequada para os adolescentes. À medida que lemos apercebemo-nos de que conhecemos alguém parecido com alguma daquelas personagens. Eu recuei no tempo enquanto aluna e professora. Ri na ternura do silêncio da noite com cada uma delas.

Fecha a torneira quando lavares os dentes. Não, não é a minha voz interior, embora pudesse ser tantas vezes aquela voz que nos alerta quando nos alheamos da importância deste pequeno grande gesto. Na verdade, este é o último livro da escritora Manuela Vieira (ed. Trinta por uma Linha). Sendo tão díspares as realidades do nosso planeta, esta história encaminha-nos, através de Joni, uma criança de 8 anos, para esta necessidade de preservação do planeta e consequentemente da sobrevivência de muitas crianças, deixando-nos bem patente a importância de não desistirmos dos sonhos. Nela deparamo-nos também com temas como a gratidão e a perseverança, que nos incitam a olhar e a sentir.

Na manhã veloz do fim de semana que se seguiu, parei para saborear o sol. Abri um novo livro e comecei a ler. A leitura curiosa ficou em suspenso depois de algumas páginas. Uns dedos de conversa com alguém que, entretanto, surgiu. Ao final da noite, voltei a pegar n’ Os olhos azuis de M. H. da escritora Albertina Seco (ed. Trinta por uma Linha) e devorei-o de um trago antes de adormecer. Foi uma descoberta surpreendente, com a leveza com que autora permite que as palavras fluam numa história feita de sonhos adolescentes, intercaladas pelas reflexões diarísticas. Inspiradora. Mostra-nos o lado escuro de uma cidade alheia e assoberbada de injustiças e de perigos. Revela como a sociedade é tantas e tantas vezes indiferente. Mas revela também o olhar, o saber observar para lá do óbvio. Assim se direcionam projetos de vida, assim se constroem sonhos e se muda o mundo. A cada dia.

Quando o calendário assinalava o dia mais triste do ano, sem que disso tivesse dado conta apesar dos pingos que teimavam em acercar-se da janela e das nuvens cinzentas, chegou a MARAVI – a menina da ilha da escritora Márcia Vieira Ávila.

Viajei até à Ilha Terceira nos Açores sentada no meu canto, onde encontramos a pequena Maravi, entre sonhos e descobertas em torno do mundo que a rodeia. Esta menina é destemida e observadora e ao longo do livro vamo-nos deparando com o relato de momentos que permitem explorar a fauna, a flora, a linguagem e a cultura dos Açores. Conhecendo a autora (um presente do ano que adormeceu), percebe-se que entre estas páginas viajou também ela pelas origens. Embarquei nesta viagem, por águas desconhecidas, com esta menina da ilha. Também as ilustrações são da autoria da Márcia Vieira Ávila, em aguarela. Se também quiseres viajar, sem deixares o teu conforto, até aos Açores, lembra-te que “uma ilha é um mundo e cada novo dia há mais aventuras para viver!”.

Embora possas pensar que são leituras muito díspares, em cada uma mora algo que, também tu, jamais deves abandonar – Sonhos! Os teus e todos aqueles que vais encontrar dentro de cada livro porque ler dá sonhos! Qual o livro que vai fazer companhia? Queres partilhar comigo?

Boas leituras!

Elisabete Brito

Uma casa na lua

Olá, convido-te para a minha Casa na Lua!

Elisabete Brito é doutorada em Sociologia, Mestre em Educação e Bibliotecas e licenciada em Literaturas Modernas. Na escrita mora a sua forma de ser, de ler e de estar, entranhada em tudo o que faz. Com as palavras pinta o mundo, costura os sentidos, reinventa os dias e, acima de tudo, brinca. Gosta dos abraços do mar, do charme das flores e dos segredos que guardam as noites estreladas, de andar com a cabeça nas nuvens e dos mistérios cheios de poesia.

Subscreve a minha Newsletter

Uma casa na Lua

Newsletter

Subscreve a minha Newsletter

© Elisabete Brito I Política de Privacidade I Política de CookiesI Termos e Condições