
Elisabete Brito – 02.07.2026
O caminho na redação destas crónicas não é linear. Depende dos dias. Há temas que chamam por nós, discretamente, à espera que lhes deem voz. Vem de mansinho, mas com uma intensidade tal que permanecem numa súplica silenciosa e discreta, recusando o esquecimento, até que os transformemos em palavras. Quando assim acontece, acredito que não posso ignorar. É um pouco esse o caminho que tenho seguido e esta não foi uma semana diferente.
Muito se fala acerca deste Mundial em diferentes vertentes. Alerto que esta crónica não é sobre futebol, mas diz respeito a todos nós.
Não sei como os adeptos de outros países olham para as suas seleções, nem o que delas exigem. Talvez não sejam muito diferentes entre si. Tenho observado apenas a forma como olhamos para a nossa seleção. Em cada jogo, há uma multiplicação de análises, críticas, vozes mordazes, juízos, para além das emitidas pelos especialistas sobre o tema.
Todos se tornam especialistas em encontrar falhas, mas ninguém pensa nos sacrifícios, nas horas de trabalho, na pressão. Exige-se sempre mais. Mais golos, mais talento, mais força, mais espetáculo, mais e mais. Exigir não tem a ver com acreditar.
Talvez o futebol seja um espelho. De quê? Da sociedade e da forma como lidamos com as coisas mais banais no dia a dia ou no trabalho, da falta de confiança. Alguém se apercebeu de que raramente nos detemos naquilo que corre bem? Já não olhamos, passamos ao lado. É quase intuitivo procurar o que ficou por corrigir, o que podia ter sido diferente. O que outro não foi capaz de fazer, o que falhou.
Vivemos numa permanente exigência, como se o suficiente nunca fosse, efetivamente, suficiente. Em que pessoas nos torna essa exigência constante? Quando deixamos de reconhecer o esforço e passamos somente a medir resultados, o que revelamos sobre nós? Quiçá revela como escolhemos estar na vida ao lado dos outros.
Em segundos acontecem tragédias. Há notícias que mudam tudo para sempre, há vidas viradas do avesso, batalhas silenciosas, travadas longe dos holofotes. Perante tudo isto, continua a ser realmente importante exigir ou será mais urgente aprender a acreditar?
Há derrotas que duram noventa minutos. Outras acompanham uma vida inteira.
Há vitórias que chegam precisamente quando se perde. Quando aprendemos a valorizar o caminho percorrido, o esforço e tudo aquilo que não aparece no resultado final.
Afinal, acreditar é permanecer, mesmo quando os resultados não correspondem às expectativas. É reconhecer o esforço, em vez da perfeição. É compreender que apoiar também passa por aceitar que nem sempre se vence e que o valor das pessoas não se mede em meros resultados.
Texto publicado em: https://www.facebook.com/profile.php?id=61570787903821

Elisabete Brito
Uma casa na Lua

Olá, convido-te para a minha Casa na Lua!
Elisabete Brito é doutorada em Sociologia, Mestre em Educação e Bibliotecas e licenciada em Literaturas Modernas. Na escrita mora a sua forma de ser, de ler e de estar, entranhada em tudo o que faz. Com as palavras pinta o mundo, costura os sentidos, reinventa os dias e, acima de tudo, brinca. Gosta dos abraços do mar, do charme das flores e dos segredos que guardam as noites estreladas, de andar com a cabeça nas nuvens e dos mistérios cheios de poesia.



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