Quando dizemos não

Quando dizemos não!

Elisabete Brito – 09.07.2026

Há uns dias questionei-me: representar alguém significa, realmente, estar sempre disponível? Representar alguém numa determinada instituição é assumir uma responsabilidade que transpõe a presença formal. É ser voz, rosto e elo de ligação entre pessoas, ideias e objetivos comuns. No entanto, representar não significa deixar de existir para além desse papel.

A responsabilidade não se mede pela ausência de limites, nem pela capacidade de responder a qualquer momento. Para que ela seja consciente, deve ter coerência, permitindo conciliar presença, escuta, intervenção e espaço para reflexão. Estabelecer limites não diminui a dedicação.  Possibilita, na verdade, que essa presença para os outros seja mais genuína e consistente.

Neste equilíbrio surge um dos grandes desafios da sociedade atual, em que somos inundados constantemente por e-mails, mensagens, alertas, há uma sensação constante de obrigação. A raia entre responsabilidade e acessibilidade tornou-se cada vez mais ténue. Por isso, o silêncio pode não ser interpretado da melhor forma do outro lado. Mas, afinal, é fundamental desligar e reconhecer que o tempo para descansar e viver para além das exigências dos outros é aquilo que realmente importa.

A tecnologia surgiu com o intuito de nos facilitar a vida e, naturalmente, ajuda, mas, em muitas situações, controla o nosso tempo. Como afirmou Peter Drucker, o tempo é o recurso mais escasso e, se não for gerido, nada mais pode ser gerido.

As notificações não se preocupam se interrompem um encontro, um diálogo importante, um abraço, uma brincadeira, um jantar familiar, umas férias. Simplesmente caem para nos lembrar que do outro lado há alguém à espera. Talvez seja uma falsa sensação de obrigação. O que fazemos diante delas?

Numa sociedade que valoriza as respostas imediatas, esquecemo-nos tantas vezes que a mente também precisa de silêncios, intervalos e tempo para restaurar energias. Talvez a verdadeira sapiência por estes dias não seja responder a tudo e a todos, mas saber parar e ficar em silêncio e entender que a presença online não tem de ocupar todos os espaços. A presença é muito mais do que isso. É escuta, atenção e partilha, e essa acontece fora dos ecrãs para nos regenerar.

Respiro tranquilamente enquanto escrevo. Talvez seja um luxo (que seja dos poucos dos quais não abdico), mas vou querer continuar a dizer, em muitos momentos, “agora não”. Vou continuar a cuidar de mim, a querer escutar o silêncio que o ruído tenta aniquilar. Esta é uma escolha consciente, talvez um ato de resistência. Que seja aquilo que me define. Reencontrar-me-ei sempre no silêncio e entre os silêncios dos abraços e das palavras, distante da velocidade do quotidiano. Afinal, não somos servos da tecnologia.

Texto publicado em https://www.facebook.com/profile.php?id=61570787903821

Elisabete Brito

Uma casa na Lua

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Elisabete Brito é doutorada em Sociologia, Mestre em Educação e Bibliotecas e licenciada em Literaturas Modernas. Na escrita mora a sua forma de ser, de ler e de estar, entranhada em tudo o que faz. Com as palavras pinta o mundo, costura os sentidos, reinventa os dias e, acima de tudo, brinca. Gosta dos abraços do mar, do charme das flores e dos segredos que guardam as noites estreladas, de andar com a cabeça nas nuvens e dos mistérios cheios de poesia.

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