
Elisabete Brito – 04.06.2026
Junho abraça cada criança quando abre as portas da sua casa. Chega com a promessa de dias mais longos e de um verão que se aproxima. Com ele, o dia da criança lança um convite para olharmos para os mais pequenos e para a necessidade de que cada um merece um lugar seguro e cheio de esperança para crescer, sonhar e ser feliz. Na infância, o tempo corre a uma velocidade diferente daquela que conhecemos quando crescemos, os dias são intermináveis e as perguntas curiosas multiplicam-se porque as crianças, tal como os poetas, espantam-se com a simplicidade dos pequenos milagres.
Houve um tempo em que a infância morava mais na rua do que dentro de casa. Nesse tempo as brincadeiras eram mais simples. A rua e os espaços ao ar livre eram lugares de encontros espontâneos, de risos e de muitas descobertas. Talvez nas cidades fosse um pouco diferente, mas pelas aldeias as gargalhadas estendiam-se pelos montes durante horas.
Horas a jogar à bola, a saltar à corda, a jogar à macaca, ao elástico, às escondidas ou a inventar aventuras entre carrinhos e bonecas. Com a terra e a areia construíam-se castelos e faziam-se refeições mirabolantes. A escola ocupava apenas uma parte do dia. O acesso à informação era mais limitado, era preciso pesquisar, esperar e, às vezes, imaginar. Dispensavam-se grandes recursos; a imaginação era o maior recurso, transformador. O mundo era um território cheio de aventuras em que cada um era explorador e construtor dos seus pequenos mundos.
Hoje as crianças continuam a brincar, a rir, a sonhar. A configuração deste novo mundo é um pouco distinta. Muitas vezes são os ecrãs que iluminam o rosto e não o sol, os dedos já não se sujam tantas vezes de terra. As respostas a tantas perguntas estão apenas à distância de um clique.
O problema não está na tecnologia. Ela abre portas e aproxima distâncias. No entanto, a velocidade não pode substituir a invenção, nem estas ligações digitais podem afastar os espaços de encontro, os abraços e a presença física. Esta nova forma de entretenimento não pode roubar o aborrecimento porque ele é o princípio do que está para nascer e nos torna criativos.
Onde andam agora os silêncios que traziam no pensamento mundos inteiros? Por onde caminha a liberdade de errar? Para onde foi a liberdade de brincar sem horários? Talvez o tempo seja aquilo de que mais precisam. Tempo para estar, ouvir, brincar, criar. Tempo para serem crianças porque nos pequenos instantes onde moram o afeto, as descobertas, os sonhos, a amizade, os abraços, a ternura e a atenção, nascem as memórias mais valiosas que se veem com o coração.
Texto publicado em https://www.facebook.com/photo/?fbid=122109940310692930&set=a.122101308992692930

Elisabete Brito
Uma casa na Lua

Olá, convido-te para a minha Casa na Lua!
Elisabete Brito é doutorada em Sociologia, Mestre em Educação e Bibliotecas e licenciada em Literaturas Modernas. Na escrita mora a sua forma de ser, de ler e de estar, entranhada em tudo o que faz. Com as palavras pinta o mundo, costura os sentidos, reinventa os dias e, acima de tudo, brinca. Gosta dos abraços do mar, do charme das flores e dos segredos que guardam as noites estreladas, de andar com a cabeça nas nuvens e dos mistérios cheios de poesia.



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