O instante em que a Lua faz promessas ao Sol

O instante em que a Lua faz promessas ao Sol

Elisabete Brito – 13.08.2026

Dizem que a Lua e o Sol raramente se encontram. O Sol está acostumado a iluminar os dias. A Lua, altiva, embala silenciosamente as noites. Porém, no dia 12 de agosto, tem um encontro marcado, ao final da tarde.

Portugal assiste a um espetáculo inusitado no céu: um eclipse solar que esconde o Sol e deixa o céu mais escuro por breves instantes. Neste caso, a Lua coloca-se entre a Terra e o Sol, projetando a sua sombra sobre o nosso planeta.

Quando esta crónica for publicada, este encontro já terá ocorrido, mas no instante em que a escrevo, ainda existem muitos “ses”, todos à espera de que seja o momento perfeito. Talvez as promessas do tempo ideal se cumpram. Talvez toda esta azáfama tenha valido a pena. Talvez não tenha sido aquilo que tanto ansiaram. Talvez as filas se multipliquem e muitos se cotovelem na confusão. Mas essa será já outra história deste enorme cenário do universo.

No entanto, neste momento ainda persiste uma espécie de ansiedade no ar, que vai crescendo à medida que as horas se aproximam.

Os óculos certificados para observar o eclipse tornaram-se quase tão importantes como o próprio fenómeno. Embora pareça uma solução óbvia, não basta pegar nos óculos de sol habituais e esperar que funcionem. Já todos perceberam que essa não é opção.  Nos últimos dias, as perguntas multiplicaram-se aqui e ali. Onde se encontram os óculos adequados? Ainda há? São certificados? Foram chegando e esgotando. Vão reabastecer o stock? Todos tentam estar preparados.

Ninguém quer arriscar e olhar diretamente para o sol. Saíram, entretanto, algumas notícias de alternativas para observar o eclipse, olhando de forma indireta para o sol, sem colocar em risco a visão.

Muitos escolheram o sítio para assistir a este espetáculo, nem que isso implique fazer quilómetros. Tem de ser o sítio ideal, afinal este é um fenómeno raro em Portugal.

É curioso como este encontro desperta tudo isto em nós. Muitos são os que querem observar o instante em que a Lua esconde o Sol e vão interromper aquilo que estão a fazer e dirigir a atenção para deixar o olhar suspenso no céu.

É extraordinário como, por instantes, talvez muitos deixem de clicar nas teclas, para apenas observar a beleza deste encontro. Talvez o céu se altere, a luz fique mais tímida e a vida pareça andar mais vagarosamente, para logo a seguir voltar tudo ao ritmo habitual.

Talvez após tudo isto fique algo em nós que nos faça perceber que depois de olhar o céu já não somos mais os mesmos, independentemente daquilo que cada um veja no mesmo acontecimento. Quiçá precisemos de observar mais.

Por agora, fico apenas a imaginar o que esconderá este encontro. Talvez a Lua tenha muitas histórias para contar, num momento que, para nós, é fugaz. Talvez façam promessas que apenas os céus poderão escutar. Talvez a Lua sussurre segredos àqueles que tiverem o coração livre para escutar.

Quiçá haja sempre tempo para parar. Parar para olhar, sentir e perceber aquilo que efetivamente vale a pena, sem precisar de ser dito.

Texto publicado em https://www.facebook.com/photo?fbid=122117176010692930&set=a.122101308992692930

Elisabete Brito

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Elisabete Brito é doutorada em Sociologia, Mestre em Educação e Bibliotecas e licenciada em Literaturas Modernas. Na escrita mora a sua forma de ser, de ler e de estar, entranhada em tudo o que faz. Com as palavras pinta o mundo, costura os sentidos, reinventa os dias e, acima de tudo, brinca. Gosta dos abraços do mar, do charme das flores e dos segredos que guardam as noites estreladas, de andar com a cabeça nas nuvens e dos mistérios cheios de poesia.

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