A coragem de recomeçar

A coragem de recomeçar

Elisabete Brito – 16.07.2026

 

Muitos têm a ideia de que a perseverança se mede pelos grandes feitos. Uma escalada de uma montanha ou algo ainda mais arriscado. Não obstante, as maiores demonstrações de coragem surgem, tantas vezes, longe dos holofotes. Acontece sempre que decidem recomeçar.

Parece algo tão simples! Quando o computador deixa de responder, desligamo-lo e voltamos a ligá-lo. Durante breves instantes fica tudo mergulhado na escuridão e o sistema reinicia para voltar a funcionar. Recomeçar é carregar num botão para reiniciar. No entanto, a vida, ao contrário do computador ou de outras máquinas, não nos deu um botão que resolva em alguns segundos ou minutos os problemas com que nos deparamos.

Recomeçar implica que algo não correu bem. Voltar ao ponto de partida não é fácil. Talvez os erros sejam vistos como sinais de fraqueza. Quando alguém falha, cresce cá dentro aquele sentimento de desilusão em relação aos outros. Mas todas as histórias, umas mais visíveis do que outras, são feitas de tentativas, quedas, maiores ou menores, e novos princípios.

Talvez o primeiro impulso seja ver o silêncio negro, tal como no computador. No entanto, depois da tormenta, o sol reaparece e o céu abre-se novamente. Depois do inverno, em que tudo se despe e cai, a natureza rejuvenesce. A vida também renasce das cinzas. A vida é feita de ciclos, mais densos ou mais leves. Estranhos, por vezes.

Recomeçar não implica apagar o que ficou para trás. Qualquer experiência que tenhamos vivenciado, por mais amarga, é parte de nós, é aquela impressão digital que nos molda. Cada obstáculo revela uma força desconhecida e escondida. O maior desafio é vencer a voz do medo, aquela que teima em sussurrar que é tarde, que não faz sentido continuar a desbravar caminhos ou os julgamentos.

Mas, por breves instantes, surge a coragem, uma luz ainda ténue. Talvez os primeiros passos sejam hesitantes, pequenos e incertos. No entanto, são eles que permitem que o impossível seja possível. Não agora, mais tarde. Ainda que apenas uma única pessoa acredite e desafie essa voz.

Afinal, a vida não pertence a quem nunca tombou, mas a quem descobriu forças para se erguer, repeliu a poeira dos fracassos e persistiu na caminhada.

Recomeçar não é voltar atrás, nem fazer um “reset” do computador. As memórias e as cicatrizes ficam dentro de nós. A única diferença é que alguém escolheu acreditar que ainda há muito por fazer, muito por caminhar, por descobrir, por aprender, por construir, sob a luz da esperança.

Texto publicado em: https://www.facebook.com/profile.php?id=61570787903821

Elisabete Brito

Uma Casa na Lua

Olá, convido-te para a minha Casa na Lua!

Elisabete Brito é doutorada em Sociologia, Mestre em Educação e Bibliotecas e licenciada em Literaturas Modernas. Na escrita mora a sua forma de ser, de ler e de estar, entranhada em tudo o que faz. Com as palavras pinta o mundo, costura os sentidos, reinventa os dias e, acima de tudo, brinca. Gosta dos abraços do mar, do charme das flores e dos segredos que guardam as noites estreladas, de andar com a cabeça nas nuvens e dos mistérios cheios de poesia.

Subscreve a minha Newsletter

Uma casa na Lua

Newsletter

Subscreve a minha Newsletter

© Elisabete Brito I Política de Privacidade I Política de CookiesI Termos e Condições