O essencial é invisível aos olhos

O essencial é invisível aos olhos

Elisabete Brito – 23.07.2026

 

O essencial é invisível aos olhos.  Esta frase de Antoine Saint-Exupéry acompanha-nos há décadas. Quem não leu “O Principezinho”? Muitos podem não ter dado conta, mas esta obra coloca-nos diante de uma questão desconfortável. Será que vemos realmente as pessoas ou apenas aquilo que queremos ver?

A sociedade que conhecemos define em muito pouco tempo aquele que tem diante de si. A roupa que veste, a forma como fala, a idade, a aparência dão azo a que se criem imagens rápidas. Muitas vezes tão distantes da realidade. O talento, o esforço, o sacrifício, a inteligência e a competência não se veem a olho nu. Revelam-se nas atitudes, no esforço e nos caminhos que se constroem, não nas etiquetas que se criam.

Nem sempre as primeiras impressões contam a história por inteiro. A mulher, de socas, cabelo grisalho preso e rosto onde o tempo escreveu as suas histórias e o cansaço das noites foi deixando sombras, decidiu entrar na loja pela manhã. Há quem a olhe de alto a baixo. Talvez tenham pensado que não tinha dinheiro para comprar nada do que estava exposto nas prateleiras. Não imaginam que as socas carregavam uma médica que, ao longo de horas, caminhou pelos corredores de um hospital, enfrentou urgências e cuidou de doentes, enquanto muitos repousavam num sono tranquilo.

Os olhos veem somente o calçado, não o esforço. Olham o descuido, não o cansaço. Reparam nas rugas e nas olheiras, mas desconhecem as noites a cuidar, sem encostar o rosto na almofada. Nestes olhares mora apenas a aparência. Ignora-se a dedicação e o sacrifício. Não lhe faltava dinheiro; escasseavam-lhe horas de sono.

O exterior não nos permite conhecer as histórias que moram em cada corpo. Cada pessoa transporta em si uma realidade invisível, onde se encaixam desafios, esforços, sonhos, cicatrizes. O verdadeiro valor raramente reside na roupa que se veste ou na primeira impressão. Esse valor resguarda-se naquilo que muitos desconhecem.

Os olhos não conseguem captar tudo. Limitam-se àquilo que é visível e palpável. Talvez apenas o respeito, a empatia e a atenção consigam ver para lá do simples olhar.

Afinal, o verdadeiro valor habita muito para além da mera aparência. Descobre-se naquilo que cada pessoa é quando não existem aplausos ou olhares que escrutinam. Realmente o essencial é invisível aos olhos porque se revela apenas naquilo que somos.

Texto publicado em https://www.facebook.com/profile.php?id=61570787903821

Elisabete Brito

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Elisabete Brito é doutorada em Sociologia, Mestre em Educação e Bibliotecas e licenciada em Literaturas Modernas. Na escrita mora a sua forma de ser, de ler e de estar, entranhada em tudo o que faz. Com as palavras pinta o mundo, costura os sentidos, reinventa os dias e, acima de tudo, brinca. Gosta dos abraços do mar, do charme das flores e dos segredos que guardam as noites estreladas, de andar com a cabeça nas nuvens e dos mistérios cheios de poesia.

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