O lugar do outro

O lugar do outro

Elisabete Brito – 30.07.2026

Todos os dias nos entram em casa notícias devastadoras, que parecem acontecer apenas aos outros. Os comentários multiplicam-se. Uns crucificam, outros são mais moderados.  Em poucos se encontra empatia.

A empatia não implica deixar de condenar comportamentos quando eles os justificam, mas reconhecer e compreender o contexto e a situação. Tragédias e situações difíceis não acontecem apenas aos outros; ninguém está imune à dor, à perda ou a decisões que surgem em circunstâncias inimagináveis. Podem bater-nos à porta quando menos esperarmos. Falar é muito fácil quando não estamos no lugar do outro, porque não sabemos o que é estar verdadeiramente naquele lugar. Estas notícias desafiam-nos a olhar para lá das manchetes que nos colocam na posição de meros observadores.

Na verdade, a sociedade atual julga a uma velocidade impressionante muito antes de tentar compreender. Afinal, colocarmo-nos no lugar do outro exige tempo, escuta e modéstia para reconhecermos que não conhecemos verdadeiramente a história por inteiro de ninguém. É mais simples e mais célere a crítica imediata, mas um simples gesto de compreensão pode fazer toda a diferença.

As redes sociais conduzem-nos à reação imediata.

Comentamos sem reflexão aquilo que pouco sabemos e a empatia é a primeira vítima. Reagimos a manchetes cada vez mais sensacionalistas, incompletas e insuficientes para conhecer a vida de alguém porque a realidade não cabe em títulos ou cabeçalhos.

A velocidade com que reagimos e julgamos pode saciar um impulso e aí o cenário torna-se rotina: antes de conhecermos os factos, opinamos; antes de compreendermos, apontamos um responsável. No entanto, a empatia pede-nos ousadia, sentido de humanidade e maturidade.

Antes de julgarmos, vale a pena recordar que aquilo que vemos é apenas um capítulo de uma história. O livro completo tem muito mais para contar. Tal como disse Harper Lee “nunca compreenderás verdadeiramente uma pessoa enquanto não considerares as coisas do seu ponto de vista... enquanto não entrares na sua pele e caminhares dentro dela."

Quando criticamos alguém, o que diz isso sobre nós? Quando julgamos os outros dessa forma, não estaremos a expor mais os nossos valores, os nossos receios e as nossas fragilidades do que a realidade de quem julgamos?

Texto publicado em https://www.facebook.com/profile.php?id=61570787903821

Elisabete Brito

Uma casa na Lua

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Elisabete Brito é doutorada em Sociologia, Mestre em Educação e Bibliotecas e licenciada em Literaturas Modernas. Na escrita mora a sua forma de ser, de ler e de estar, entranhada em tudo o que faz. Com as palavras pinta o mundo, costura os sentidos, reinventa os dias e, acima de tudo, brinca. Gosta dos abraços do mar, do charme das flores e dos segredos que guardam as noites estreladas, de andar com a cabeça nas nuvens e dos mistérios cheios de poesia.

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